“Eis-me
finalmente incorporado às Unidades Especiais. Os 30 dias que restam vão ser
minha verdadeira vida. Chegou a hora. O treinamento para a morte me
espera: um aprendizado intenso para morrer com beleza. Parto para o combate
contemplando a imagem trágica da pátria. Sou um homem entre outros. Nem bom nem
mau. Nem sou superior nem sou um imbecil. Sou decididamente um homem.” (Okabe Hirabazau).
Não
existe nada, mas nada, maior do que a vida. A vida é sem dúvida o bem mais precioso (a par da honra e dignidade) de qualquer Homem.
Os efemerópteros, particularmente os
“paga canderus” ou mariposas são seres
vivos que atinge menor tempo de vida na terra (dificilmente vivem mais de 24
horas).
Uma mariposa depois
de estar num ovo, ainda depois de estar no estado de larva e finalmente depois
de evoluir para lagarta, tece cuidadosamente o seu casulo para se transformar
num ser extremamente belo e efémero. Depois de estar brilhante, bela e colorida,
a mariposa dificilmente vivi mais do que um dia. O pior é que geralmente se
suicida tendo apenas algumas horas de vida.
Comecei
este artigo citando uma carta de Okabe Hirabazau, datada em 22 de Fevereiro de
1945. A carta acima foi a última mensagem do piloto japonês Okabe Hirabazau à
família antes de ter morrido num ataque suicida com apenas 24 anos de idade.
Os
pilotos japoneses incorporando “o vento de deus” (Kamikaze), adoptaram atitudes
curiosas. Treinados para o jiao tu, quando faltavam combustível, arremessavam
seus aviões contra os navios inimigos.
Quanto a mim não é
catastrófico o suicídio da mariposa, que por estar aficionada pela luz e pelo
calor e, ao pretender tocá-la põe fim a sua curta vida. O catastrófico seria o
suicídio (seja físico ou intelectual) através de uma política de jiao tu.
A vida nos impõe
tomadas de decisões. Todos somos forçados a tomá-las ao longo da vida, mas o
mais importante é salvaguardar, sempre, a dignidade pessoal em todas as
decisões. É claro que temos o livre arbítrio de, até, estar propositadamente e
constantemente errados, mas deve-se a todo o custo salvaguardar a dignidade
evitando deste modo ser cadáver social.
JIAO TU é o termo que
deu origem a frase TERRA QUEIMADA. Uma pessoa sem dignidade é sem dúvida aquela
que ao morrer fisicamente ou socialmente tenta arrastar consigo tudo o que está
a volta.
Somos mais de 6000
safendense e mais de 6000 forma de pensar, estar e agir. Em safende existe mais
de 6000 intelectuais, que de várias formas idealizam o seu bairro. Talvez em
safende exista mais de 6000 opções de estar na vida. Em Safende existem
doutores, pedreiros, padeiros, professores, carpinteiros, taxistas,
enfermeiros, políticos, esqueitistas, ciclistas, fisiculturistas, engenheiros, peixeiras, pescadores, pugilistas, religiosos, ateus, thug life, enfim, várias opções de vida.
Quanto a mim escolhi ser político e acredito nunca ter decepcionado o meu
bairro.
Apreendi ainda
adolescente que o importante não é ser doutor ou pedreiro, mas sim ser sempre melhor
naquilo que fazemos. Quanto a mim ser político não significa depender dela para
viver ou sobreviver, antes de mais significa tomar ou influenciar decisões em
benefício duma sociedade ou uma comunidade.
É com alegria que
lembro do dia que um dos filhos de Xima me ter dito que queria ser político.
Fiquei orgulhoso e senti que tinha a responsabilidade de em situação alguma o
decepcionar.
Ainda criança decidi
ser político, sim ser político e, hoje aos 28 anos vejo que não envergonhei por
um minuto os safendenses. Fui o primeiro safendense a estar na assembleia
municipal, por várias vezes assumi o secretariado da mesa dessa assembleia, e
por nenhum momento deixei ficar mal os safendenses. Coordenei a maior juventude
partidária na Praia e fiz parte da comissão política nacional dessa juventude
partidária, mas não existe uma única pessoa capaz de apontar-me uma nódoa sequer.
É vestida dos mesmos valores que até hoje estimo por serem as correctas que
pondero seriamente a minha candidatura a liderança dessa juventude partidária a
nível nacional.
É com profunda
satisfação que vejo os meus primeiros passos no ofício que ainda criança
escolhi. Se um dia, por um erro ou por não conseguir ser mais-valia, vir a sentir
a minha morte no ofício que escolhi, não levarei comigo o bom nome dos
moradores de safende. Não praticarei sob hipótese alguma a política de terra
queimada.
Também não levarei
a descrédito a minha entidade empregadora, nem nunca fecharei portas ao
associativismo em safende. Em todas as actividades da vida a melhor decisão quando
se está a estorvar é a retirada. Sair antes de levar consigo tudo ao redor é a
atitude corajosa e digna que muitos infelizmente não tomam, escolhendo praticar
o Jiao Tu, fechando portas, descredibilizando
instituições, decepcionando a sociedade e as comunidades.
Acredito que Safende tem sido digna na forma que encara o
associativismo. Safende é sem dúvidas um exemplo na prática do voluntariado,
contrapondo com muitos bairros e lugares onde as portas já se fecharam a muito
tempo.
Sinto orgulho em fazer parte desse bairro. Safende tem tido grandes
vitórias ao longo dos tempos. Hoje temos líderes em quase todos os quadrantes
da sociedade e que por opção escolheram permanecer no bairro. Vencemos a má
fama. Agora somos apontados como bom exemplo. Comparo Safende com uma cidade
por onde sobrevoam inúmeras aeronaves. Agora falta a cada safendense evitar que
as aeronaves destruam a nossa cidade.
Que cada um, lá onde escolheu estar, tenha a noção de que é um pequeno
deus por ter uma aeronave nas mãos. Que cada um tenha a noção que nem sempre dá
para manter a aeronave nos céus. As vezes ela terá que cair, mas cabe a cada
um, lá onde escolheu contribuir, escolher levar a aeronave em queda ao deserto
ou a cidade.